segunda-feira, 8 de abril de 2013

A MINHA AGENDA - 1951


Tenho uma agenda há sessenta e dois anos,
Custou-me seis escudos e cinco tostões,
Nela tenho registadas datas importantes,
De nascimentos, casamentos e falecimentos,
Guardo-a como meu memorial e património.

São datas que de quando em vez, recordo,
Por estar vivo e dar importância à família,
Relembrando suas datas inesquecíveis,
Que formam a minha árvore genealógica
E que quero legar aos meus descendentes.



O AMOR PERTENCE AO PASSADO


O amor pertence ao passado, está esgotado,
Fala-se de amor, com muita facilidade,
Trata-se do amor como uma fatalidade,
O amor perdeu todo o seu significado.

O amor tornou-se banal, os poemas o dizem,
Confessa-se o amor como se nega a seguir,
Não há a certeza se o amor é correspondido,
O amor é tão falso que nos obriga a mentir.

O amor é tema esgotado, pertence ao passado,
É do tempo de Romeu e Julieta e de Camões,
Hoje o amor é artificial, já não arrasa corações
É falsamente enaltecido e mal recompensado.

O amor hoje não é romântico como no passado,
Banalizou-se pra consumo carnal e selvagem,
Já não tem a beleza d'outrora, perdeu a graça,
Entrou em descrédito e resultou em desgraça.

Por isso detesto escrever sobre o falso amor,
Meus poemas são mais sérios e verdadeiros,
Falam da vida real, sem fantasias e cores,
Da Natureza e pessoas com mérito e valor.

A OUTRA PRAIA

A praia agora é outra, tem areia grossa,
Está mais suja e tem alforrecas,
As águas que a beijam são escuras,
Misturam-se com petróleo,
Matam os peixes inocentes.

A praia agora é outra, não dá pra banhos,
Já não se faz jangadas de madeira,
E de tambores de combustível,
Essa praia já não existe,
Agora a praia é outra.

A praia agora é outra, é dos senhores
Do petróleo e do dinheiro,
Perdeu o cheiro forte da maresia,
Já não tem areia branca, virou preta,
É a praia que sobrou.

Os pescadores choram a sua praia,
Onde descarregavam o seu peixe.
Agora a praia é outra,
Já tem outro dono,
Deixou de ser do povo.

Povo que perdeu a noção da praia,
Se acha num deserto, sem água,
Porque deixou de ver a sua praia,
Sabe que a praia já não é sua,
Que a praia agora é outra.

domingo, 7 de abril de 2013

OLHO PARA O CÉU


Olho pro Céu, quero desligar-me da terra,
Não desejo assistir mais ao circo burlesco,
Que a terra me oferece sem recompensa.
Pra manter meu viver agradável e feliz
Olho pro Céu a todo o momento.

Olho pro Céu, à noite, vejo a lua a brilhar,
Vejo as estrelas e os cometas a passar,
Vejo as aves noturnas piando, a voar,
Os morcegos a emigrar pra comerem,
Olho pro Céu à noite, e fico apaixonado.

Apaixonado fico por misteriosa donzela
Que me aparece entre nuvens,
Beijando-me com muita paixão,
Mas ao desaparecer de repente,
Deixa-me um vazio no coração.

Olho pro Céu, de dia, e vejo maravilhas,
Desde o Sol brilhante a nascer,
Vindo ter comigo pra m’aquecer.
Vejo andorinhas alegres a voarem,
Dando boas vindas, à minha janela.

Olho pro Céu e vejo por vezes nuvens,
Tanto claras, como cinzentas,
Carregadas de água, pra regar
Os campos, cujos alimentos
Irão muitas bocas sustentar.

Olho pro Céu e vejo-o cruzado por aviões
Que levam e trazem pessoas e bens,
Dum extremo a outro da terra,
Com missivas dos namorados,
Que vivem de sonhos, enlevados.

Olho pro Céu e ao Céu estou rendido,
Vejo nele a minha felicidade,
No Céu vejo liberdade,
Vejo Paz e fraternidade
E a minha próxima morada.

sábado, 6 de abril de 2013

ALVOROÇO NA FLORESTA


A bicharada entrou em pânico naquela floresta,
Com a chegada dos madeireiros.
Suas máquinas e ferramentas ameaçavam
Derrubar as árvores centenárias
Refúgio da bicharada com seus ninhos,

Os papagaios e águias lá do alto espiavam
As acções dos madeireiros intrusos,
Dando sinais de alerta à restante bicharada
Que dispersava com choros e lamentos
Pra parte incerta, receando sua sobrevivência.

Fugiam os chimpanzés, os macacos e os répteis,
Os pássaros e as formigas, sem culpa formada,
Era o homem que se intrometia
Para os escorraçar e ficar com seus haveres,
Com a intenção desmedida de enriquecer

Deixou de haver alvoradas, pra bicharada,
Que a emigrar pra longe foi obrigada,
E os homens se tornaram insensíveis,
Por pensarem apenas nos seus interesses
E não se lembrarem de eventuais danos.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

O AMOR NÃO SE INVENTA CONQUISTA-SE


O amor não se inventa, conquista-se
E vive-se, alimentando o nosso ego,
Passa a ser tudo pra nós, deixa-nos cego,
É um sentimento natural, não inventado.

O amor aparece e desaparece sem avisar,
Passa a fazer parte de mim, sem preço,
Recebo o amor, vivo-o com muito prazer,
Sem ele sofro e quase que enlouqueço.

Não sendo inventado, o amor não se compra,
É dádiva da natureza, que brota singelo,
Por isso deserta, quando de mim se farta,
Parte pra destino incerto, terrível mistério.

São muitos os amores, que me desejam,
Mas a escolha é minha, meu maior amor,
É minha mãe, meu pai, toda a minha família,
Meus amigos e amigas, eterna companhia

NASCI COM O CHEIRO DO MATO


Nasci com o cheiro do mato e o cantar dos pássaros,
Na imensa África que me permitiu ter vida,
Não dou a minha riqueza como perdida,
Bem hajam meus pais por lá me terem concebido.

Valeu a pena ter nascido em terra única e abençoada,
Com a companhia da bela flora e fauna,
Baía de águas quentes onde me banhava,
Granja verde, pulmão vivo de ar puro e abnegado.

Voltaria a nascer na minha terra, se Deus o permitisse,
Pra recomeçar tudo da mesma maneira,
Dar à minha vida outro rumo, outra opção,
E ficar na minha Terra, noutra dimensão.