domingo, 31 de julho de 2011

OS SABORES DA LEITURA

(INÉDITO)

Por achar a leitura a base da boa formação cívica e intelectual de todo o ser humano, sinto-me motivado a escrever algo sobre a leitura e os seus sabores. Considero o sabor da leitura como o sexto sentido, contribuindo para a arquitectura da nossa personalidade.

Quem tem o prazer de ler, sente os seus sabores próprios de acordo com a sua personalidade e de acordo com o tipo de leitura que faz. As preferências são muito diversas, passando pelo histórico, sociológico, político, económico, artístico, religioso, etc. O prazer da leitura depende do tipo de leitor e do género de leitura. Deve haver a preocupação de seleccionar a boa leitura, ignorando os textos viciados e nocivos. A leitura é independente e não sofre a influência da própria escrita. Esta é exclusiva dos vocacionados. A leitura é livre e está ao alcance de todo o indivíduo que saiba ler.

Tal como os alimentos que depois de saboreados, são ingeridos e digeridos, também a leitura deve ser digerida e sujeita à nossa própria análise e crítica. No meu caso particular, descobri que tenho grande sensibilidade para a poesia. Quando a leio, estou sempre a descobrir a verdade da vida e da natureza. Através do Facebook temos hoje acesso à mais variada poesia e a poetas anónimos que são virtuosos na sua feitura.

É indiferente que a leitura seja em papel ou pelos meios virtuais tecnológicos, pois não perde a sua essência e magnetismo.

Em tempos recuados de meados do século XX, o ensino primário passava pela leitura obrigatória, em voz alta, na aula, de um texto. Eram exigências principais a dicção e a entoação, passando pela análise e interpretação do texto. Estou convencido que se perderam estas regras de ensino, contribuindo para a desmotivação e ausência do gosto pela leitura.

Os hábitos da boa leitura são fundamentais na formação da pessoa humana. Dá-lhe uma visão realista da vida e uma ideia mais consistente e assertiva da dimensão universal do relacionamento e concórdia entre os homens.

PESADELO (I)

(INÉDITO)

Águas de prata,

Horizontes de ouro,

Céu de topázio,

Recordações boas e más

Que ficaram para trás.


Estendo a mão,

Tento alcançar,

Algo invisível,

Pura ilusão, sem solução,

Apenas pesadelos.


Fecho os olhos,

Adormeço inebriado,

Com visões coloridas,

São fantasias mal vividas,

Ornamentos do meu ego.


A multidão é barulhenta,

Confusão semeia,

A desordem incendeia.

Colhe os frutos maduros,

Impuros e venenosos.


Sinto-me arrastado,

Desventrado,

Torturado,

Impotente para lutar,

Fraco e sem armas.


Finalmente, acordo.

Nada sinto,

Nada vejo,

Apenas um sonho desfeito,

Para esquecer até morrer.

AS NOSSAS AMARRAS


(INÉDITO)

Todos nós temos amarras que nos prendem não só à vida, mas principalmente a projectos e objectivos, que se pretende atingir.

As amarras começam a surgir logo que temos vida no ventre da nossa mãe. À nascença, libertamo-nos dessas amarras e automaticamente nos agarramos a outras. São amarras que vão desde o aleitamento, passando pelo crescimento, pela instrução, pela adolescência e por toda a vida activa. Na idade da reforma, essas amarras ficam muito curtas e com pouca margem de mobilidade, ficando condicionadas pela eventual fragilidade dos seus próprios suportes e pelas condições de vida de cada um de nós.

As nossas amarras, hoje, não têm qualquer consistência, por serem afectadas pelas más condições sócio económicas que estamos a atravessar. Só uma auto-gestão muito rigorosa das nossas acções poderá consolidar as nossas amarras. Temos de estar atentos ao comportamento das nossas amarras, porque também estão sujeitas a actos maliciosos de terceiros que tentarão, por motivos diversos, cortá-las, deixando-nos à deriva. Este fenómeno é muito frequente acontecer e torna-se difícil, senão impossível, anular e repor a estabilidade perdida.

Sei que muitos leitores que tenham tido o incómodo de ler mais esta minha crónica, comentem que é tudo “narrativa delirante”, igual a muitas outras da minha lavra, mas sinto-me a vontade ao escrevê-las porque a minha disponibilidade actual de tempo, dá-me um maior poder de observação e análise dos fenómenos sociais que nos dias de hoje invadem as nossas vidas, tão diferentes e castradoras dos nossos mais elementares direitos, não obstante, por ironia, vivermos numa época considerada de “democracia”.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

AS RIBEIRAS DO COENTRAL

(INÉDITO)

Abraçadas à serra, namoram,

Correm cristalinas e velozes,

Ansiosas de se beijarem,

Apaixonadas e cúmplices,

Após no sopé se juntarem.


Os seus encantos e beleza,

Guarnecem a paisagem,

São o orgulho da natureza,

Como sonho e miragem.


Benditas águas que brotam

Das fontes naturais das fragas,

Dão vida aos peixes e plantas,

Curam maleitas e chagas.


Depois do enlace nas Sarnadas,

Chegam ao poço da Corga,

Em lua de mel de missa cantada,

Ao som de instrumentos de corda.


Unidas numa única ribeira,

Chegam frias e tranquilas,

À atraente Castanheira de Pêra,

Dando vida à Praia das Rocas,

Com honras de bela princesa.

domingo, 24 de julho de 2011

OS NOSSOS SEGREDOS

(INÉDITO)

A vida intensa e preenchida que hoje todos vivemos, não nos permite perceber que há momentos que automaticamente guardamos na nossa caixa de segredos. Aqui permanecem eternamente até ao fim da nossa vida, sem serem revelados.

Na minha percepção considero que não há ninguém que consiga escapar a este desígnio, pois faz parte da natureza humana, o que revela que o ser humano é imperfeito, egoísta e não solidário. Com este comportamento, resguardamo-nos do julgamento público dos nossos pensamentos e acções e permite-nos acusar o próximo de defeitos e atitudes menos sérias e normais. As pessoas julgam-se únicos senhores da verdade e menosprezam os outros, considerando-nos pecadores e de baixa moral.

Por outro lado há casos em que a partilha de segredos por pessoas consideradas amigas – que merecem absoluto sigilo –, acabam por ser revelados por estas ainda em vida dos seus confidentes e mais descaradamente depois do falecimento dos mesmos confidentes. Fica demonstrado que o interesse do mediatismo na revelação dos segredos se sobrepõe à amizade, pelo que se conclui que não há verdadeira amizade.

Chega-se à triste conclusão que cada vez se verifica mais guardar os segredos na nossa própria caixa, levando-a para a eternidade e correndo o risco de Lá ser aberta e sermos julgados por aquilo que pecadoramente construímos e gerimos

sexta-feira, 22 de julho de 2011

TRÊS TELEFONEMAS

(INÉDITO)

Em pleno verão, passei a noite quase em vigília, atormentado pela temperatura de cerca de 40º que se fazia sentir no interior da minha casa. Com dificuldade em retomar o sono, veio-me à ideia, manhã cedo, vasculhar a minha agenda antiquária, onde tinha, registados, uns quantos nomes de meus ex-colegas da Escola Comercial dos anos 50.

Durante cerca de 60 anos, perdi o contacto completo com esses meus amigos, por exigências profissionais e familiares. Também tive a limitação imposta pela barreira geográfica do Oceano, quando regressei a África e, posteriormente, o meu desterro para o interior de Portugal com o distanciamento do litoral, absorvido pelos meus deveres profissionais assaz exigentes.

Como eu tinha os nomes completos e locais de residência de então, através da PT, consegui localizar uns quantos. Liguei então para o José Luís, para o José Miguel e para o Rogério. As surpresas foram distintas. O José Luís, a pesar dos seus 76 anos ainda trabalha, pelo que só conseguimos falar às 22H00. Nós compartilhámos da mesma rua e da mesma escola, mas o José Luís não tinha já uma ideia clara da minha pessoa. Fez-me uma série de perguntas para se certificar de que eu era de facto o seu amigo Rui, mas permaneceu com dúvidas. Achava que eu seria mais um vigarista que estava a telefonar-lhe. Despedimo-nos, mas no dia seguinte fui surpreendido com um seu telefonema, dizendo-me que depois de ter pesquisado na Internet, tinha-me encontrado no Facebook, pelo que me pedia desculpa por ter duvidado. Marcámos então um próximo encontro em Lisboa para nos revermos.

Quanto ao José Miguel reconhecemo-nos logo como antigos amigos, mas não conseguimos alongar a conversa porque ele sofre de surdez e o aparelho produzia-lhe ruídos auditivos. Ficou adiada também a nossa conversa para um encontro pessoal.

Depois destas tentativas frustradas de voltar a abraçar os meus amigos, senti-me desmotivado a prosseguir as minhas pesquisas para localizar outros que ainda andarão a penar por este mundo irreal, completamente diferente daquele em que nós vivemos há meio século.

O caso que mais me penalizou, foi o do Rogério. Este era um dos meus melhores amigos. Depois de se ter extinguido a C.N.N (Companhia Nacional de Navegação), onde ele era chefe das reservas de passagens, o Rogério transitou para outra empresa marítima, mas foi de imediato saneado, tendo a sua vida entrado em retrocesso. Deixei de ter o seu contacto. Quem me atendeu de sua casa, foi a sua mulher. Deu-me a triste notícia de que o Rogério havia falecido há cerda de ano e meio. Fiquei ainda mais pesaroso por saber que o Rogério estava ligado ao Museu Ferroviário do Entroncamento e que se deslocou por vários vezes ao Entroncamento e a Tomar, sem nunca o ter reencontrado.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

ENERGIAS RENOVÁVEIS

(PUBLICADO EM 09/10/09,
NA "CIDADE DE TOMAR")

Nas minhas romagens e visitas frequentes às terras de origem de meus pais, apercebo-me, com sensibilidade crescente, de que vou beber naqueles locais uma forte dose de energias. Estas energias irradiam da natureza fértil e pura da sua flora e fauna impares. Recentemente, outras energias se vieram juntar a estas, de efeitos secundários, mas de real impacto pelo seu contributo para uma melhor qualidade de vida: refiro-me à energia eólica. Esta é gerada pelas dezenas de turbinas de vento que se enquadram na cumeeira da Serra da Lousâ.

Na verdade, quem visitar as aldeias situadas no sopé daquela Serra, particularmente, Coentral Grande e Gestosa Fundeira, onde nasceram meus pais na última década do século XIX, fica agradavelmente surpreendido com a beleza agreste e multi-colorida das suas encostas que ainda conserva. As encostas da serra que circundam a aldeia do Coentral Grande são acariciadas por dois cursos de água cristalina e gélida que se enleiam num namoro permanente, acabando por se acasalar no lugar das Sarnadas. São as ribeiras das Quebradas e das Quelhas. Daqui, fundidas num único corpo e alma, tomam o nome de ribeira de Pêra que prossegue o seu caminho, aumentando o seu caudal para alimentar o Lago das Rocas, na bela vila de Castanheira de Pêra, sede de Concelho.

Todo o panorama de que se desfruta, desde a Serra e suas encostas e desfiladeiros até ao vale, é de uma beleza estonteante e saudável, insuflando-nos um reforço da nossa auto-estima para enfrentarmos os desafios da vida quotidiana. Por isso, recomendo que, em alternativa à praia, optem por aquela e outras zonas do interior, não sendo necessário subirem ao Gerez e Terras do Bouro para usufruírem de cenário igual.