sábado, 12 de fevereiro de 2011

AURORAS PERDIDAS - ESPERANÇAS RENASCIDAS


INÉDITO

Depois de auroras perdidas,
O que resta?
Mentes e mãos vazias;
Arrependimentos.

Anos, meses e dias sem retorno,
Adiamentos ilusórios,
Consciências feridas;
Constrangimentos.

Abundância e pobreza,
Em confronto aberto,
Chocam-se cegas;
Desprendimentos,

As auroras já perdidas,
Levam-nos anos de vida,
Cabelos brancos e rugas;
Vincadamente.

Marcados fisicamente,
De moral dilacerados,
A vida foge-nos;
Eternamente.

Vontade e solidariedade unidas,
Atitudes nobres,
Florescer de alegrias;
Bons sentimentos.

Aproveitemos as auroras
Que poucas nos restam,
Para unirmos as mãos;
Entendimento.

A minha voz apela-vos
Primos e irmãos de sangue,
Esqueçam as quezílias;
Para todo o sempre.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

SILÊNCIO E PROTESTO

INÉDITO

Faço do silêncio o meu talismã,
Só me ouço a mim próprio,
Sei o que sou e o que quero,
Recordo com saudade, minha irmã,
Por me ter levado ao promontório,
Que dobrei esperançado e crédulo.

Do outro lado da Boa Esperança,
Descobri um novo mundo,
Deslumbrado e surpreso fiquei,
Guardando bem fundo a esperança
De desvendar o Portugal profundo,
Com que há muito tempo sonhei.

Tornei-me cavaleiro andante,
Procurei trabalho e terras,
Encontrei portas fechadas,
Fui rotulado de vil tratante,
Ergueram-me vales e serras,
Atirado para celas encerradas.

Com Fé e muita perseverança,
Não desisti do meu caminho,
Sempre honesto e trabalhador,
Mantive acesa a luz da esperança,
Acompanhado, não sozinho,
Com a família, sempre batalhador,

Passados muitos anos fui premiado,
Com netos e bisnetos ao meu lado,
Pessoa justa e bem intencionada.
Profissional competente exaltado,
Por amigos e inimigos gabado,
Passei da vida activa à reformada.
.

sábado, 15 de janeiro de 2011

LÁGRIMAS


INÉDITO

Já não tenho lágrimas para chorar.
Derramei-as no lago da minha vida.
Amargas, ardentes e sofridas,
Procuro esquecê-las e não recordar.


Tentei a vida rever no lago,
Sem sucesso, de tão poluente,
Fiquei do futuro temente,
Morrer na cruz crucificado.


Fiquei árido como um deserto,
Boca seca, memória lavada,
Barco encalhado em enseada
Sonho desfeito, sono desperto.


Já não sei, só quero esquecer,
Todas as lágrimas derramadas,
Palavras ocas, mal interpretadas,
Que eu quis deixar morrer.


Paixões e Amores esquecidos,
Alegrias e Dores sentidas,
Amigos e inimigos, fantasias,
Projectos e sonhos preteridos.


A vida sem lágrimas, é nada.
As lágrimas são sinais de vida,
Vida intensa sofrida e sentida.
Só é vida quando muito amada.
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

MINHA CABINDA

INÉDITO
No meu curto percurso literário, este é o meu
primeiro soneto, escrito com muito amor.

Terra Sagrada onde eu nasci,
Bela, rica, sereia encantada,
No teu seio acolhido, cresci,
Foste sempre a minha amada.

Embora tão longe, estás sempre perto,
Devo-te tudo o que eu fui e que hoje sou,
Das tuas excelsas virtudes estou eu certo,
As bestas não contam, são quem me roubou.

Esperanças minhas por algum dia,
Ver justiça e sucesso na minha vida,
Como marcas para o meu futuro.

Com as bestas justamente punidas,
Descansarei para sempre, de mãos unidas,
No meu jazigo, no meu sepulcro.

O ADEUS

INÉDITO

Deixei a Minha Terra sem dizer adeus.
Não tive tempo, desapareci.
Rumei a Norte.

Trouxe recordações da Minha Terra.
Nada do que aconteceu, mereci.
Foi o meu Desnorte.

Comigo trouxe também a família.
Mulher e quatro filhos, assustados.
Descrentes e desenraizados.

Valeu-me o engenho e a arte
Duma profissão de maltratados.
Valoroso contabilista.

Em vão, trabalho procurei 6 meses.
Recusas, acusações, humilhações.
Mal tratado, sem razões.

Desterrado fomos fixados em Tomar.
Anos de sacrifício e afirmação,
Com crença e devoção.

Venci e convenci com firmeza.
Acrescentei netos e bisnetos.
A minha única riqueza.

Não foi um Adeus para sempre.
O meu coração retornará.
Quem sabe, se lá ficará.

sábado, 1 de janeiro de 2011

JOAQUIM MAIEMBLA

INÉDITO

Cigarro de forte nicotina, fumado dentro da boca, expelindo de quando em vez o fumo como uma chaminé, era o prazer máximo da vida quotidiana do Joaquim Maiembla. Quando nasci, nos anos 40 do século XX, já o Joaquim era quarentão. Possante, de perfeita compleição física, de rosto oblongo e olhos dóceis, o seu cabelo de carapinha era ralo, já com salpicos brancos.
Joaquim Maiembla foi muito novo trabalhar com meu pai e especializou-se em tarefas que só ele sabia manusear com perfeição. Era ele que torrava a “ginguba” (amendoim) e o café que eram vendidos na loja, em embrulhinhos de funil de papel de jornal, por 5 tostões. Este era também o custo de uma dúzia de bananas que ligava bem com a ginguba bem torradinha. Vendia-se centenas de pacotinhos diàriamente.
O Joaquim, para além de prestimoso e fiel colaborador, era generoso e de extrema bondade, com uma postura de verdadeiro cabindês. Contou-me meu pai que o Joaquim, na sua juventude, pegava com relativa facilidade, de baixo de cada braço, saquetas de 50 kgs. de coconote (caroço do déndém, fruto da palmeira). Eu juntava-me a ele com frequência para ouvir as suas histórias e compartilhar da sua comida africana apetitosa. O Joaquim tornou-se praticamente um membro da nossa família. Fez sempre questão de residir na sua casa, numa aldeia distante de Cabinda.
Todavia, nos últimos anos da sua vida octogenária quis viver o mais perto possível do seu local de trabalho. Construímos, nos arredores de Cabinda, uma casa de madeira com as condições exigidas para uma vida tranquila e concedemos-lhe uma pensão vitalícia. Já em Portugal soube da sua norte, que me deixou muito triste por ter perdido um verdadeiro amigo.